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Quem é O Lutador?

  • Foto del escritor: Andriele Mendonça
    Andriele Mendonça
  • 16 abr
  • 6 min de lectura
Uma análise do poema sonhado por Manuel Bandeira.

Eram finais de setembro quando o poeta brasileiro Manuel Bandeira ouviu de uma sua prima, monja carmelita, uma palavra que o encantou daqueles encantamentos que, se não produz efeito no engenho, fá-lo nos sonhos. Eis o que ele mesmo diz-nos sobre esse episódio:


"(...) ouvi um dia de minha prima Maria do Carmo de Cristo Rei, monja Carmelita, a narrativa de viagem que lhe fizeram umas irmãs peruanas, de volta de uma peregrinação a Ávila, onde viram as relíquias da reformadora do Carmelo. Naturalmente falaram com unção do coração transverberado da grande santa. A palavra "transverberado" impressionou-me fundamente. Passei o resto do dia pensando nela, mas sem nenhuma idéia de poema. No dia seguinte de manhã acordo com o soneto pronto na cabeça, com título e tudo. Believe it or not." [1]

A santa em questão era Santa Teresa d’Ávila, reformadora do Carmelo e agraciada com dons místicos, dentre os quais a transverberação do coração. A própria santa descreve esse fenômeno:


A Transverberação de Santa Teresa, pintor anônimo.
A Transverberação de Santa Teresa, pintor anônimo.
"Quis o Senhor que viesse então algumas vezes esta visão. Via um anjo ao pé de mim, para o lado esquerdo, em forma corporal, o que não costumo ver senão por maravilha. (...) Via-lhe nas mãos um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, parecia-me que tinha um pouco de fogo. Parecia-me meter-me este pelo coração algumas vezes e que me chegava às entranhas. Ao tirá-lo, dir-se-ia que as levava consigo, e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. (...) É um requebro tão suave que têm entre si a alma e Deus, que suplico à Sua bondade o dê a gostar a quem pensar que minto." [2]

Conforme apreende-se do relato, a transverberação é um fenômeno místico que “fere” a alma com uma grande infusão de amor a Deus. Embora de natureza sobrenatural, pode ainda que não obrigue causar efeitos visíveis, como foi o caso de Santa Teresa. Após sua morte, encontrando-se seu corpo incorrupto, foi-lhe retirado o coração para ser exposto à veneração dos fiéis, e viu-se nele uma cicatriz cauterizada, como se ele tivesse sido ferido com “um dardo de oiro comprido e, no fim da ponta de ferro, parecia-me que tinha um pouco de fogo".


Dado o contexto, voltemos ao poema. Sobre ele, Bandeira ainda diz que, por ter sonhado com o soneto pronto, "com título e tudo", "não sei até hoje quem seja o lutador", e diz achar que a primeira estrofe parece encaixar-se com a biografia de Beethoven. [3]


Data venia, irei discordar.


Primeiramente, leiamos o soneto:


O Lutador


Buscou no amor o bálsamo da vida,

Não encontrou senão veneno e morte.

Levantou no deserto a roca-forte

Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!


Depois de muita pena e muita lida,

De espantoso caçar de toda sorte,

Venceu o monstro de desmedido porte

— A ululante Quimera espavorida!


Quando morreu, línguas de sangue ardente,

Aleluias de fogo acometiam,

Tomavam todo o céu de lado a lado,


E longamente, indefinidamente,

Como um coro de ventos sacudiam

Seu grande coração transverberado!


(30 de setembro — 1º de outubro de 1945)


Tal como o poema ao autor, o meu entendimento sobre ele também foi-me dado pronto. Era uma noite, coincidentemente, de inícios de setembro, quando, tendo caído pela milésima vez num certo defeito recorrente que já não me recordo qual era, fiz uma oração breve, como breve é todo pedido de ajuda de um soldado cansado. “Depois de muita pena e muita lida…”, veio-me à cabeça, no momento em que entrava em meu quarto, e então, como se me acendessem uma lâmpada num quarto escuro, entendi tudo, sem raciocínios intermediários.


Analisemos o poema parte à parte:


"

Buscou no amor o bálsamo da vida,

Não encontrou senão veneno e morte.

"


O lutador é alguem que “buscou no amor o bálsamo da vida”. Com amor entenda-se qualquer tipo de afeição às criaturas, i.e., ele buscou a felicidade na terra; parece-me ter maior ênfase, é claro, no amor romântico e o que mais natural ao homem? , mas ele o fazia de modo desordenado, como para ser o seu “bálsamo da vida”, lugar, esse, que só pode ser bem ocupado por Deus, sob uma pena muito severa, que é a descrita no verso seguinte: “não encontrou senão veneno e morte”. O amor, as criaturas, o mundo, portanto, não lhe deram felicidade verdadeira, antes, tiraram-na.


Diante disso, o que fez o lutador?


"

Levantou no deserto a roca-forte

Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!


Ele fechou-se em si mesmo, pelo egoísmo. Construiu uma fortaleza, uma “roca-forte” no deserto. Deserto pode ser entendido de duas formas. Primeiramente, como algo estéril, seco, diria até "morto"; depois, como um lugar de silêncio e contemplação, de reflexão interior. Então, no deserto de sua alma, “a roca em mar foi submergida”. O deserto foi de tal modo inundado pelo mar, que a sua barreira do egoísmo não foi suficiente para conter-lhe o avanço. Este mar que brotou no deserto daquela alma seca e morta, foi a graça tantas e tantas vezes evocada pela figura da água. Esses dois versos, com a figura do mar que submerge a roca-forte, parecem-me uma perfeita paráfrase do que dissera o apóstolo: "onde abundou o pecado, superabundou a Graça". [4]


A primeira estrofe é marcada, portanto, por uma transformação de alma no lutador.


Depois de muita pena e muita lida,

De espantoso caçar de toda sorte,

Venceu o monstro de desmedido porte

— A ululante Quimera espavorida!


A conversão de alma é a parte fácil, depois vem a difícil: a luta! Mas luta contra quem? Contra a “ululante Quimera”!


A Quimera é um monstro mitológico formado por três feras; possui cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. Ele precisa, então, lutar contra três inimigos, donde um é uma serpente; Diz-nos a teologia cristã que os homens temos, igualmente, três inimigos: nós mesmos (a carne), o mundo e o demônio a antiga serpente. Paralelo feito, depois de “muita pena e muita lida”, e de "espantoso caçar de toda sorte", ele a venceu! E, tendo vencido, morre, do modo como dizem as estrofe finais:


Quando morreu, línguas de sangue ardente,

Aleluias de fogo acometiam,

Tomavam todo o céu de lado a lado,


E longamente, indefinidamente,

Como um coro de ventos sacudiam

Seu grande coração transverberado!


Encontra-se, após sua morte, num céu tomado por “Aleluias de fogo” e “línguas de sangue ardente o que me faz pensar no Coro dos Mártires, dos Confessores, ou no próprio Espírito Santo. Neste Céu, conquistado pela derrota da Quimera, depois de muito esforço, ele é, enfim, premiado, ao ver o Amor de Deus que é o que permeia tudo o que há no Céu , sacudirlongamente, indefinidamente” o “seu grande coração transverberadosinal este da íntima união com Deus que conseguiu, afinal, lograr ao fim da vida.


Neste ponto, voltemos à pergunta principal deste artigo: Quem é o lutador?


O lutador bem pode ser um santo, daqueles santos que foram pecadores convertidos após alguns — ou muitos — anos de pecados, como, por exemplo, São Jerônimo, cuja festa litúrgica é celebrada no mesmo dia em que Bandeira teve o sonho. Mas, eu irei mais longe: o lutador é qualquer pessoa que, tendo se deparado com a Verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo, busca enfrentar, todos os dias, a Quimera ululante, na esperança de alcançar o prêmio eterno.



O lutador somos nós!



Sugestão: Findada a leitura desta exposição, volte e leia novamente o poema.


Nota: Que Manuel Bandeira não tenha sido um católico – como claramente mostra o seu famoso “Vou-me embora pra Pasárgada”, e um certo erotismo em alguns seus poemas – não invalida o que foi aqui exposto, visto tratar-se de um poema surgido em sonho, sobre o qual ele chegou a afirmar: “tenho que interpretar como obra alheia”. [5]


Nota 2: Ao poeta e amigo Antônio Guedes que, em 2020, diante de minha análise, disse-me que eu deveria publicá-la: Seis anos depois… aqui está! rsrs


Referências:


[1] Manuel Bandeira in Itinerário de Pasárgada, Editora Nova Fronteira, 1984, pp. 126-127.

[2] Santa Teresa de Ávila in O Livro da Vida, Cap. 29.

[3] Idem [1].

[4] Rm 5,20.

[5] Idem [1].







2 comentarios


Rômulo Souza
Rômulo Souza
16 abr

Boa crítica!


Que o autor não seja católico, pouco importa, é verdade evangélica que quando a confissão de Fé não é feita as pedras falam, seja dentro ou fora do peito incrédulo.


Observo, em prol de tua análise, que há uma confusão entre a identidade do possuidor do coração transverberado (ao fim do poema). Seria coração da Quimera ou do Lutador? Afinal, são o mesmo, pois a luta é do homem contra a própria carne, contra os próprios afetos desordenados, contra si mesmo.

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Andriele Mendonça
Andriele Mendonça
19 abr
Contestando a

Muito bom apontamento!


Sim, há uma confusão na terceira estrofe, quando o poema diz "Quando morreu...". Quando quem morreu? O lutador ou a quimera? Isso pode gerar duas linhas interpretativas:


1 - O lutador: Essa parece-me ser a interpretação mais intuitiva, pois de outro modo significa dizer que o poema muda o sujeito central de sua narração sem um aviso claro. Foi a que segui na minha análise.


2 - A quimera: Nesta linha, o lutador permanece vivo e as estrofes finais descrevem o que aconteceu, após a derrota da quimera, na vida do lutador. Aqui, a interpretação mantém a essência, mas muda um pouco o aspecto. Agora, as imagens ricas do Céu que sacudiam o coração transverberado não descrevem…


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