Machado de Assis numa mesa de bar
- Andriele Mendonça
- hace 5 días
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Actualizado: hace 4 días

O que a maioria das pessoas, talvez, não saiba – e, certamente, não sabem as que se sentam perto de mim nos transportes públicos – é que qualquer frase dita perto de um escritor pode – e, certamente, irá! – tornar-se o mote de uma crônica.
Certo dia, ouvi uma frase que já conhecia, dita por um rapaz que sentava ao meu lado no metro. É engraçado, mas, às vezes, tendo ouvido uma frase cem vezes, na centésima primeira, ela nos parece magistral.
O rapaz narrava, ao telefone, uma história curiosa, cheia de contradições por parte de todas as personagens envolvidas, e, ao terminar, deu seu parecer sobre a questão:
“É um bagulho muito bizarro!”
Ao ouví-lo, imediatamente, pensei: “Eu não conseguiria nunca resumir melhor a história!”
É que ainda outro dia, eu refletia sobre como a linguagem humana é limitada. Isto é, como há certos conceitos que não cabem perfeitamente em definições, pois excedem, eles, à amplitude da capacidade descritiva das nossas palavras, e, sendo assim, qualquer tentativa de expô-los, acaba por limitá-los. É o caso do amor (o que será, inclusive, o tema de outra publicação).
Essa frase veio-me, então, como uma flecha de luz, dar um outro eixo a esse meu raciocínio.
É que, embora os escritores e pessoas que tivemos acesso a uma boa educação formal tenhamos aversão a gírias, verdade é que há coisas que nossas palavras bonitas não conseguem alcançar plenamente, mas, às vezes, para a nossa ingrata surpresa… as gírias conseguem!
Recentemente, por exemplo, fui impactada por uma emoção confusa. Daquelas complexas demais para serem sequer entendidas, tampouco explicadas, e o não saber definir coisas afeta-me muito. Eu estava apreensiva!
– “Como posso chamar isto? É bom ou ruim?” – Nem isso sabia!
Lembrei-me, então, do nosso amigo do metro, e minha mente, enfim, repousou…
O que é que eu sentia? Digo-vos: Era uma parada muito louca!
Nem só as gírias, porém, têm esse poder inesperado. O mesmo acontece com as ditas expressões populares, de modo geral.
Mas, a questão é: por que cargas d'água isso acontece?
É que as expressões populares – que abarcam, também, as gírias, ainda que estas sejam associadas à juventude, e a primeira, a uma perenidade regional – possuem um grande poder de condensação conceitual, visto que, nascendo de experiências concretas e compartilhadas, e carecendo de definições rígidas, elas possuem, ao mesmo tempo, concretude e universalidade.
E a essa condensação, não raro, acrescenta-se, também, um certo valor particular que torna mui difícil substituí-las por linguagem formal sem que a ideia final perca, na definição, algo de sua completude.
O leitor há de convir, por exemplo, que a minha pergunta acima “Por que cargas d’água…?”, curiosamente, é muito diferente de “Por que…?”.
Assim como, após uma proposta de namoro, o amante choraria diante de um "não", mas morreria ao ouvir um "nem que a vaca tussa!”
E, ainda, se diz o dicionário que o "nada" é a suprema ausência, que dirá, então, do "nadica de nada", que, certamente, não tem o mesmo significado? Ora, se o nada nada é, como pode o nadica retirar-lhe, ainda, algo?
Outra expressão que surgiu e, digo, não é fácil ser substituída plenamente é o "sextou". Quanto a ela, pode-se dizer um caso que, decerto, nunca virará regra, mas quem se furte a seu uso esporádico por “princípios linguísticos”, só pode ser chamado de engessado, ou é alguém que não rala durante a semana inteira, desconhecendo, portanto, o particular deleite de "sextar".
Afinal, como poderíamos substituir bem esse termo?
– “Desfrutamos, finalmente, a deveras agradável sensação proveniente da chegada do período de descanso semanal, após dias consecutivos de exaustivo labor.”
Oh, permita-me dizer, sem temor de heresia, que até Machado de Assis, ao ouvir isso numa mesa de bar, diria:
– "Desculpe, meu caro amigo, mas eu prefiro sextar!"
No fundo, essas expressões surgem, justamente, porque o povo, em suas experiências cotidianas, percebe, intuitivamente, aquilo que meu raciocínio inicial formulava: a nossa linguagem oficial, por boa e rica que seja, não consegue abarcar de modo conciso e pleno a natureza de todas as coisas, pelo que sente, ele, a constante necessidade de criar. E foi assim que surgiram todas as línguas, afinal, todas as palavras existentes foram inventadas, e a diferença entre umas e outras é a antiguidade da invenção.
Espero que o leitor não entenda que quero, aqui, desmerecer a língua em sua forma, pois o que desejo é, simplesmente, não restringí-la em sua vitalidade natural e coerente com a experiência humana. A forma existe e devemos seguí-la, mas sem julgamento dos que, por circunstâncias da vida, não a aprenderam como nós, tampouco com desprezo orgulhoso das expressões surgidas da experiência comum dos falantes, e que, com eficácia, exprimem sentimentos, ideias e sensações reais. Porque aquilo que é forma hoje, outrora não fora. E aquilo que, hoje, não é, um dia, quiçá, será.
A sabedoria do povo é simples, e justamente porque simples, é verdadeira e universal! Não em tudo, é verdade, mas em muito.
E os que se julgam intelectuais devem, humildemente, reconhecê-lo. Como um adulto que, tendo medido ângulos e feito cálculos diferenciais para achar o melhor modo de retirar um obstáculo do caminho, vê uma criança agachar-se e empurrá-lo com a maior simplicidade e naturalidade possíveis.
Dito isto, desde já, passarei a usar o "sextou" como exemplo de oração sem sujeito, para meus alunos, ao lado dos demais verbos referentes a fenômenos naturais!